sexta-feira, fevereiro 27, 2004

E' MÉL - Tonino Guerra

CANTÈDA NÓV

L’avrà piuvéu zént dè e l’aqua ch’la s’è infiltréda
dri mal radóisi dagli érbi
la è arivàta in bibliotéca e la à bagné tótt al paróli sènti
ch’a l stéva céusi dróinta e’ cunvént.

Quant ch’l’è avnéu fura e’ bèl témp,
Sajat-Novà ch’l’éra e’ frè piò zòvan
l’à pórt sal schèli tótt i lóibar sòura i cópp
e u i à distóis me sòul. Pu l’à aspité che l’aria chèlda
la sughéss l’aqua dla chèrta mòla.

L’è pas un mais ad bèla stasòun
se frè ch’e’ stéva in znòc zò te curtóil
ad aspité che i lóibar i déss un sègn ad vóita.
E una matóina finalmént al pàgini agli à tachè
a zuclé lizìri ma la brèzza de vént.
E’ paréva ch’e’ fóss anivàt un bózz ad évi sòura i cópp
e léu u s’è mèss a pianz parchè i lóibar i parléva.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Albert Cossery

«A rua da Mulher Grávida (assim chamada por causa das suas moradoras, sempre em estado de gravidez) ocupa em Manchieh, bairro indígena da cidade do Cairo, um lugar preponderante e distinto. A maioria dos seus habitantes masculinos vive de maneira miraculosa e bate nas mulheres quase todos os dias. Isso explica em parte o seu ascendente sobre as outras ruas do bairro onde o elemento feminino é predominante. Aqui, eram os homens que reinavam, e reinavam de um modo inelutável.
Por medida higiénica, foram obrigados a banir da ordem natural da rua um certo número de ruídos nefastos. Os primeiros a sofrer represálias foram os vendedores ambulantes. Essas criaturas bárbaras chegavam logo às seis horas da manhã e apregoavam aos gritos, como prostitutas, os seus ignóbeis comestíveis, que sem pudor comparavam a frutos raros. Nestas condições, o sono matinal, tão caro aos nossos pacíficos habitantes, tornava-se um luxo muito complicado, uma esperança de um género fabuloso. Alguns meses foram suficientes para se verem livres desse flagelo. Mas ao mesmo tempo que travavam a guerra contra os vendedores ambulantes, também atacavam os automobilistas e uma quantidade de outras perturbações sonoras, desagradáveis aos sonhos permanentes. Em resumo, atacavam sem piedade todos os perturbadores do repouso público. Abundavam os exemplos de ferocidade para com os delinquentes. Como, entre outros, o desse vendedor de hortaliça encontrado uma bela manhã deitado em cima da padiola, na atitude de quem parece estar a dormir, mas que afinal estava morto.
A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça sucumbira, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Aly tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitara em sacrificá-lo para salvaguardar o sono de toda a rua. Perante um tal sentido de sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.» Os Homens Esquecidos de Deus, páginas 12 a 14